Novos anos de vida

Por DARIO VASCONCELOS 25/03/2019 - 11:26 hs

Do alto dos meus trinta e poucos anos, vejo o espiral de ilusões que me trouxe até aqui. As velhas incertezas da vida pairando leve, suave, cômicas, quase uma valsa lenta, impiedosa e solitária.

Na antessala das expectativas, me aninho para olhar as pessoas que nas minhas entranhas transitaram. Fizeram do meu corpo, depósito de mágoas e mornas esperanças. Deixaram em mim seus pedaços, suas sobras, suas sombras, uma pitada de sexo selvagem, beijos embrulhados com fita de cetim e saudades. Daqui as vejo, as sinto, mas não as toco. Sou um pouco medo, um pouco fera ferida pela vida e sorte. A distância e a imparcialidade, estampadas em seus lábios nos afetam, nos afastam, mas a mim não incomoda. 

Daqui de cima, sinto uma nauseante sensação de ressaca moral, que assola minha alma. Sinto frio. Sinto pena de mim. Sinto muito, a cada segundo que sobrevivo.

Me apoio no parapeito da vida e com a vista turva, vejo o amor. Ele tem a face marcada pelos ponteiros do tempo. Resquícios dos rasos sorrisos frios, que tocaram sua boca entreaberta. Parece que tenho medo de altura, ou de ser gente grande. Talvez seja isso. Ou talvez eu nunca quisesse ter ido tão fundo, por receio dos rótulos. Por vergonha dos olhares alheios e o impacto disso na minha pele escura.

Agora é tarde, voei alto, para além de mim e de quase tudo. Me impedi de sorrir e abandonei uma dezena de sonhos novos. Os deixei derramados em lençóis de camas estranhas. Esse lugar de dúvida, não me pertence tanto quanto antes. Quanto mais penso nisso, mais longe meus pensamentos me levam. De repente me observo: braços abertos, cabelos ao vento, pés descalços pisando firme a superfície fria do muro que eu mesmo criei. Tomo um gole de coragem, inspiro profundo todas as dores do mundo e mergulho. Minha relação com os trinta e poucos anos começa agora e estou a um passo de ser outro. E você?